Exposição individual de Maria Kowalski
09.OUT.2025 — 09.JAN.2026
Biblioteca Campus 3 — ESAD.CR
Vivemos todos sob o mesmo céu
Numa procura de (re)construção da narrativa colonial, proponho uma disseminação ética do arquivo colonial pela construção de um discurso que extrapole a história dominadora da ideologia colonialista, procurando dar uma forma de poder, pela minha interpretação artística e simbólica, a quem foi colonizado.
Sob esta ideia, este trabalho partiu da coleção fotográfica da Missão Antropológica e Etnológica da Guiné – 1946/47 (Universidade de Lisboa/Museu Nacional de História Natural e da Ciência – IICT), concebida com o intuito de servir os propósitos de investigação coloniais do ministério das Colónias – Junta das Missões Geográficas e Investigações Coloniais, e liderada por Amílcar de Magalhães Mateus, assistente da Faculdade de Ciências do Porto e zoólogo dedicado à antropologia física.
Nesta coleção estão incorporadas várias categorias, sendo alvo de interpretação e recodificação visual as fotografias da categoria Tipo, ou seja, retratos de habitantes de várias comunidades da Guiné-Bissau. Estes retratos eram captados com o objetivo único de recolher documentação objetiva sobre a caracterização física das pessoas, complementada pela mediação e descrição minuciosa das partes do corpo de cada pessoa, tendo em vista usá-las como força de trabalho em diferentes formas de produção e exploração da terra guineense, para proveito único da economia portuguesa. As pessoas eram fotografadas de forma obrigatória e sem consentimento. Esta documentação revela-se como uma prova da exploração colonial e do uso forçado e objetificado da população guineense.
O guineense engenheiro agrónomo José Filipe, afirma que é desejável a “reconciliação pela verdade na escuta da sua multiplicidade de fontes” (Kowalski, 2024).
Após o meu trabalho de investigação que se desenvolveu sob esta premissa, resultando na tese de doutoramento “Apropriação participativa de memórias fotográficas coloniais: o arquivo e a construção de narrativas na Guiné-Bissau” (2024), e como possível abordagem para este processo de reconciliação, pretendo, através do objeto fotográfico, de forma alegórica e sob o meu olhar criativo, dar uma nova vida às pessoas fotografadas, trazendo cor a estas fotografias a preto e branco, através da sua manipulação e integração de novos elementos visuais. Procuro, assim, criar uma narrativa de visão e interpretação pessoal, subjetiva, que permita transparecer personalidades imaginada e livres das pessoas então fotografadas.
E ainda numa homenagem à imagem analógica, e com referência a técnicas fotográficas do séc. XX e às viagens de exploração e de expedições científicas datadas do final do século XIX e século XX, ilustrações e imagens do arquivo fotográfico são conjugadas, e diferentes formas de impressão artesanal e digital são executadas, para a criação de uma terceira imagem, que passará a representar um imaginário que procura dignificar a pessoa retratada. Cada imagem coloca num mesmo nível objeto/sujeito de estudo e explorador, antropólogo e cientista, fotografado e o seu retrato fotográfico, procurando, assim, representar o dissolver de relações de dominação.
As ilustrações que aqui aparecem provêm de estudos científicos de história natural, efetuados nos mais variados cantos do mundo, publicados em livros como o ‘Dictionnaire Universel D’histoire Naturelle, Birds of America’, ‘Nouveau Larousse illustré, Poissons, écrevisses et crabes… que l’on trouve autour des Isles Moluques, et sur les côtes des Terres Australes’, ‘The Great Barrier Reef of Australia’, ‘Kunstformen der Natur‘, ‚Le Larousse pour tous’, ‘Faune de la Sénégambie’, ‘Histoire naturelle des oiseaux de paradis et des rollers, suivie de celle des toucans et des barbets’, ‘Art forms in Nature/ Kunst-Formen der Natur’ e, por fim, no livro ‘Travels in Africa During the Years 1875 – 1886’, do explorador russo Wilhelm Junker, numa altura em que os impérios europeus começaram a controlar uma grande parte do território africano, em busca de território e dos seus recursos naturais, num sistema colonial de dominação pela opressão e violência, com repercussões negativas, ao nível social, cultural, ecológico e económico, que ainda hoje se fazem sentir.
Maria Kowalski
Este trabalho beneficiou do uso da infraestrutura PRISC (Portuguese Research Infrastructure of Scientific Collections).
Contextualização | Coleção Fotográfica da Missão Antropológica e Etnográfica da Guiné – MAEG (1946-47)
Em 1929, a crise económica mundial, iniciada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, abriu caminho para a subida ao poder de governos ditatoriais e fascistas em vários países. Com propostas populistas, foi defendida a ideia de que só um governo forte e centralizador poderia tirar a nação da grave crise que enfrentavam. Foi assim na Alemanha (com Hitler), na Itália (com Mussolini) e em Espanha (com Franco).
Portugal percorreu um caminho semelhante, passando, a partir de 1933, a viver sob um regime fascista e ditatorial, que durou quase 40 anos (1933 – 1974). Conhecido como Estado Novo (desencadeado pela ditadura militar implantada em 1926), este regime autoritário, liderado por António Salazar até 1968, e preconizando uma união da Nação, centralizou o poder, instaurou a censura, assim como a perseguição política, enquanto promovia uma ideologia de nacionalismo conservador e a determinação da manutenção do império colonial, com o seu início no século XV.
Os espaços ultramarinos, mantidos sob a tutela portuguesa, eram espaços de produção com uma intenção de promoção da economia portuguesa, usando como mão de obra forçada os seus habitantes, adaptados às condições climáticas tropicais, fomentando a argumentação de que a fragilidade física do europeu estava intimamente ligada à sua superioridade intelectual.
Para garantir a eficácia da exploração colonial e a rentabilização sistemática dos recursos associada, foi promovida uma intensa investigação e procura de conhecimento sobre as colónias e os seus povos, organizando-se expedições científicas, com o propósito essencial de estudar pormenorizadamente as etnias locais, pelas observações em etnografia, em antropologia física, para “estudo da robustez e vitalidade dos indígenas”, e as suas características psicológicas e psicofisiológicas, num estudo dos “(…) exemplares mais típicos dos diferentes agrupamentos étnicos.” (Diário do Governo, 1946). Neste contexto, em 1946 foi enviada à Guiné-Bissau uma equipa portuguesa que integrou a Missão Antropológica e Etnográfica da Guiné – MAEG, com o principal objetivo de “(…) reunir informação fiável e suficiente que fortificasse a administração colonial na Guiné.” (Martins, 2014, p.131). Esta Missão teve dois trabalhos de campo: o primeiro entre abril e agosto de 1946 e o segundo entre dezembro de 1946 e maio de 1947.
As imagens aqui trabalhadas, provêm do trabalho de campo desta Missão e da coleção fotográfica resultante, enquanto documentos de registo complementar à sua investigação científica. É constituída por 1692 negativos originais em nitrato de celulose 6x6cm, 4638 provas em papel de revelação de gelatina e prata (9x12cm), 713 provas de contacto em papel de revelação de gelatina e prata (6x6cm), 110 provas em papel de revelação de gelatina e prata (7x9cm), 792 cartões/fichas de perfil, com provas coladas, 81 dossiers, dos quais 62 contêm medições antropométricas, encontrando-se os restantes vazios, e 5 maços de documentação textual (cerca de 3300 fólios).
Os registos foram captados consoante a mobilização geográfica que a equipa de antropólogos fez pela Guiné-Bissau, nas duas campanhas, estando categorizados por temáticas: adornos, diversos, coreografia, indumentária, indústria, pinturas murais, habitação, paisagens, vida da missão, religião, e, em grande maioria, Tipos: retratos de pose, de frente e perfil, alguns com as pessoas sentadas, outros em pé, sob um fundo que se desejava neutro, escolhidos e, por vezes, disposto para o efeito, tendo por objetivo seguir o propósito antropobiológico (ou antropologia física, baseada no estudo das medidas e proporções do corpo, e na padronização das características físicas, com correlação entre fatores genéticos e o meio geográfico, ecológico, cultural e social do ser humano) da missão. As fotografias Tipo são, assim, um complemento ao sistema antropométrico de identificação, ou seja, à medição dos corpos, incluindo a estatura, largura biacromial e bicristal, altura do tronco, comprimento dos membros superiores e inferiores, e ainda várias observações relativas à pele, cabelos, olhos, nariz, entre outros. O retrato fotográfico, ou a fotografia Tipo, pretendia assim, auxiliar o estudo das características físicas dos povos colonizados, para perceber a sua resiliência física e as suas competências de trabalho físico atribuído, forçadamente, para a produção de bens que servissem a economia de Portugal.
FICHA TÉCNICA
Curadoria
Maria Kowalski, IPL e ICNOVA – Grupo Cultura, Mediação e Artes
Coordenação Científica
Maria Kowalski
Fotografia
Missão Antropológica e Etnográfica da Guiné – MAEG, 1946-47/ ULisboa/IICT; Universidade de Lisboa, Museu Nacional de História Natural e da Ciência
Produção
Sabina Silva (Gabinete de Programação e Difusão Cultural do IPLeiria);
Design Gráfico
Francisco Moreira (Gabinete de Programação e Difusão Cultural do IPLeiria);
Apoio:
ICNOVA | FCT
O ICNOVA é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UID/5021/2025
ICNOVA is funded by national funds through the FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., in the scope of the project UID/5021/2025
Agradecimentos
ULisboa/IICT; Universidade de Lisboa, Museu Nacional de História Natural e da Ciência; Teresa Mendes Flores – ICNOVA; Marta C. Lourenço – MUHNAC.